O Livro dos Monólogos (Recuperação para ouvir objetos)

Diógenes Moura

O Livro dos Monólogos (Recuperação para ouvir objetos) explora e expande o diálogo entre literatura e fotografia que marca a trajetória do escritor e curador pernambucano Diógenes Moura. Conhecido por duas décadas de trabalho como curador de fotografia, sobretudo à frente da Pinacoteca do Estado de São Paulo, ele mostrou sua prosa urgente, intensa e irônica em seis livros anteriores e também nas intervenções poéticas e personalíssimas que comentam as duas centenas de exposições de fotografia que organizou. Aqui, os dois campos de expressão se unem com intensidade e intencionalidade inéditas. “Originalmente, a única coisa que faz sentido pra mim é escrever. Sempre vi a fotografia ligada à literatura”, diz Moura. “O Livro dos Monólogos dá forma a algo que sempre existiu e que venho desenvolvendo mais precisamente nos últimos dez anos. É uma tentativa de irmanar literatura, imagem, fotografia e existência”.

A narrativa se relaciona a quadrantes específicos de três cidades brasileiras, que o autor conhece por experiência imersiva: o bairro paulistano onde vive, ex-refúgio pacato de velhinhos que hoje registra quatro arrombamentos semanais; o arrabalde de Tejípio, no Recife, onde se criou, numa casa de chão de ladrilho hidráulico depois soterrada por uma linha de metrô; e o bairro da Liberdade, em Salvador, cidade onde viveu durante 17 anos e que tem até hoje tem uma profunda relação entre memória e agonia. Nesses cenários de ruína deflagrada e insidiosa violência, aparições de naturezas diversas emergem, ora no texto, ora na imagem, ora em ambos. Gente real e próxima, gente do passado do autor ou alheio, gente imaginada, gente vista em uma fotografia. A mulher que surgiu de branco, descalça, na chuva, e sumiu, uma noite no Minhocão; o homem abatido com uma flecha cravada no pescoço no centro de São Paulo; a sobrinha transexual que Moura ajudou a criar, Marcele, que é personagem importante no livro; a “menina de nove anos com corpo de criança e rosto de mulher”; a noiva da foto centenária e bordada na parede do gabinete; o próprio Diógenes, em alguns retratos feitos por fotógrafos amigos. Fragmentos de dramas e sonhos dessa galeria híbrida de personagens – que Moura procura entender “entre vida e morte, entre público e privado, na janela das suas casas, numa notícia de jornal, na tela de um computador ou celular, nos gritos das ruas, na esquina mais próxima”– se acumulam no texto veloz. A eles, juntam-se os invisíveis: gente em situação de rua e usuária de crack que mora sob invólucros de plásticos no centro de São Paulo. Irônicos em seu extremo apuro estético, os registros do autor de pessoas e famílias fumando crack em casulos semitransparentes, às vezes à luz do dia, remetem a alguma performance contemporânea. “Não é fotografia, é uma imagem diante do abismo”, diz Moura sobre seus pacotes-existência. “Não sou fotógrafo, nunca fui, nunca serei.” Imagens chocantes de um elaborado abandono, elas renovam um desafio que ele parece considerar inerente à fotografia, assim como à vida: a capacidade de enxergar o outro.

Expor “a prova mais perversa da violência urbana que ultrapassa todos os limites nas capitais brasileiras” é parte da missão a que o escritor se dá em O Livros dos Monólogos, na tentativa, talvez, de fazer pensar sobre “esse terreno devastado, ignóbil, que não percebemos quando estamos nas ruas, dentro dos ônibus, dos automóveis e dos metrôs, anônimos, (...) entre abandono, construção, progresso, desabamento e descoberta, entre vida, sangue, poesia, resquício e morte”. A crueza de sua prosa-poesia é uma forma possível; a imagem também, desde que se entenda pelo que é. “Em tempo algum uma imagem será apenas uma imagem. Em todos os tempos uma palavra será sempre uma palavra”, afirma Moura.

Páginas: 200

Impresso em Pólen soft 80g/m2

Formato: 16 x 23 cm

Bilíngue português - inglês 

Ensaio fotográfico : Alê Ruaro 

 

 

Sobre Diógenes Moura

Nascido em Recife, Diógenes Moura fez parte da equipe que fundou a  TV Educativa da Bahia antes de transferir-se para São Paulo, em 1998, e assumir a curadoria de fotografia da Pinacoteca do Estado, onde trabalhou entre 1993 a 2013, realizando mais de uma centena de exposições e contribuindo de forma decisiva para a constituição do acervo fotográfico da instituição. Escreve desde os doze anos. Seu primeiro livro, Mingau de Almas ou O Traço Fixo da Loucura (1982), foi publicado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Depois viriam Tire a Cadeira da Chuva (1986), Elásticos Chineses (1998), Drão de Roma – Dezembro Caiu (2006), Ficção Interrompida (Ateliê, 2010), premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e finalista do Jabuti de Literatura em 2011, e Fulana Despedaçou o Verso (Terra Virgem, 2014). Em O Livro dos Monólogos, amadurece o projeto literário anunciado nos antecessores, extraindo potência poética de uma observação arguta e profundamente envolvida da singeleza humana, da violência que se instala nas ruas brasileiras e da indiferença imoral, ainda que generalizada, diante de ambas.

 




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