A Marcha do Sal

Érico Hiller 

 

Páginas: 252

Formato: 25 x 34 cm

Impresso em Garda Kiara 150 g/m2

 

Com imagens produzidas durante peregrinação a pé pelo oeste da Índia, fotógrafo revisita as ações, as palavras e o pensamento de Mahatma Ghandi

 A alma de um país milenar e as ideias de um dos maiores líderes do século 20 emergem das imagens e reflexões que compõem A Marcha do Sal, do fotógrafo Érico Hiller (Vento Leste, 252 págs). O livro registra a peregrinação de 400 quilômetros que Hiller realizou, em novembro de 2017, refazendo passo a passo o trajeto da Marcha do Sal, protesto pacífico contra a coroa britânica comandado por Mahatma Ghandi em 1930, com repercussão mundial. Revelando ao mundo o interdito que proibia os indianos de extrair seu próprio sal e os obrigava a comprá-lo dos ingleses, a marcha se tornaria emblemática do ideal de resistência não-violenta de Ghandi, além de pedra fundamental no processo de independência da Índia, submetida ao jugo colonial inglês desde o século 18.

Projetos documentais baseados em experiências pessoais, que conjugam curiosidade jornalística e “subjetividade assumida”, são o foco de Hiller há dez anos. “Não são testemunhos factuais, mas interpretativos, expressivos. Correta ou não, minha perspectiva fica visível neles”, explica o fotógrafo. Para construir A Marcha do Sal, ele partiu do ponto inicial do protesto, Ahmedabad, e atravessou o calorento estado de Gujarate até chegar a Dandi, no oceano Índico. No trajeto de um mês, feito integralmente a pé, revisitou cenários chave da marcha, entrevistando herdeiros de participantes e testemunhas e revivendo passagens marcantes. Mais do que tudo, deixou-se impregnar pela paisagem humana do caminho e pelo sentido do pensamento de Ghandi, cujos escritos estudou por anos.

O epíteto Mahatma, que significa “a grande alma”, virou o prenome oficial de Mohandas Karamchand Ghandi, que formou-se em direito em Londres e viveu na África do Sul até 1914, quando voltou à Índia natal e abraçou a luta pela emancipação do país. Influenciado por pensadores do século 19, defendia o princípio da não-violência, da desobediência civil e da resistência pacífica, uma política que denominava satyagraha – literalmente, a força da verdade. Incentivando boicotes, marchas, jejuns e outras ações não violentas, exortava a “velha Índia” a “apontar uma saída para um planeta sedento de paz” e “farto de ver correr sangue”. Ghandi seria assassinado em 1948, apenas um ano após a conquista da independência da Índia, em um crime político ligado à violenta oposição interna entre muçulmanos e hindus.

Para colocar-se no encalço das ideias e dos feitos do líder pacifista, Hiller caminhou sem planos, parando em pequenos hotéis, onde houvesse, pedindo pouso em casas, quando era preciso e, eventualmente, dormindo ao relento, sob as estrelas. A máxima ghandiana do “menos é mais” se impôs ao fotógrafo desde o começo: “Eu procurava caminhar com o mínimo de peso possível; meu equipamento se resumia à minúscula câmera sem espelho que eu trazia pendurada. Usei poucas lentes; uma ia no equipamento, a outra ia em uma pequena bolsa de couro que trazia na lateral do corpo. Fui, literalmente, deixando peso e excessos pelo caminho, absorvendo toda a concussão moral e física que uma longa caminhada nos impõe.”

 O brilho de Ghandi

Contrapondo mais de 70 imagens tomadas no percurso e breves textos reflexivos, o livro estabelece ligações entre a história e a filosofia de Ghandi e a paisagem e o povo indianos, revelando tanto a rica herança cultural do país quanto algumas das mazelas que seus governos jamais puderam erradicar. A hospitalidade dos moradores dos vilarejos por onde Hiller passou, e que disputavam a honra de hospedá-lo – oferecendo deferências como uma comida menos apimentada –, além da forma como as aldeões cuidam uns dos outros em situações de pobreza, tramando uma delicada teia de proteção e solidariedade, lembram o fotógrafo de estar “em uma terra onde o brilho de Gandhi ainda cintila no coração dos homens”.

Outras imagens e passagens aludem à situação ainda subalterna, quando não perigosa, da mulher indiana, a quem Ghandi acreditava caber um papel proeminente na luta pela independência e no estabelecimento de uma sociedade pacífica. “As mulheres deveriam ensinar aos indianos como se viver melhor, a partir dos preceitos da não-violência”, afirma Hiller. “Gandhi acreditava que a mulher deveria elevar sua participação nacional e sair do confinamento que muitas eram submetidas às quatro paredes de casa.”

Em mais de um momento do trajeto, o fotógrafo se depara com o drama continuado dos indianos sem casta, ditos intocáveis: excluídos pelo hinduísmo, que lhes atribui faltas cometidas em outras vidas, eles não devem ser tocados. A discriminação de base religiosa foi fortemente combatida por Ghandi, que rebatizou a casta harijan, ou filhos de Deus. Hiller retrata uma mulher do bairro dos intocáveis de Dabhan, que Ghandi visitou, na passagem da marcha pela cidade, e onde fez questão de beber água do poço, para escândalo de parte dos presentes. Em Gajera, Hiller fotografa a imensa árvore sob a qual, em outra parada da marcha, o Mahatma permaneceu sentado em silêncio até que os intocáveis locais fossem admitidos entre os ouvintes. “Mais que uma árvore, ela é um templo vivo para a humanidade. Um ícone de libertação, resiliência e inclusão social”, escreve o fotógrafo. 

 

Érico Hiller nasceu em Belo Horizonte (MG) e radicou-se em São Paulo, onde se formou em comunicação social pela ESPM. Começou a fotografar em 2003; a partir de 2008, desenvolve uma série de ensaios documentais, sempre em torno de temas que lançam luz sobre os efeitos devastadores dos modelos econômicos e comportamentais humanos hegemônicos. O primeiro, Emergentes, transformado em livro em 2008, enfoca as enormes diferenças sociais geradas pelo ideal desenvolvimentista nos países “em desenvolvimento”, como Argentina, Brasil, China, Índia, México e Rússia. Ameaçados, de 2012, retrata regiões de grande riqueza natural que correm grandes riscos, no Ártico, na Tanzânia, na Etiópia, nas Maldivas e na Mata




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